Wednesday, 18 February 2015

I've made a friend in Hamilton, New Zealand. Her name is Leontae.

A L. é irmã do T. Tem 11 anos e é uma das crianças mais adultas que já conheci. Toma conta do irmão e mesmo quando ele não está ao lado dela, sabe sempre onde ele está.




A semana passada quando cheguei, veio logo ter comigo e disse "Vamos-nos embora! De vez!", de acordo com a história, o pai tem que arranjar trabalho e não está a conseguir aqui. Ela estava triste. Talvez porque como eu, ia perder uma amiga. Eu não sabia se havia de levar a história a sério ou não. É costume pessoas dependentes de droga fazerem planos e falarem deles mas muitas vezes não irem avante com a ideia. A maior preocupação dela era o T. Ele tem uma terapeuta da fala que demorou muito tempo a conseguir e se se mudarem para outro sítio ele vai perder esse benefício. Segundo ela, o T já fala muito melhor desde que começou as sessões com a terapeuta. 
Tentando animá-la disse "Bem, então temos que fazer alguma coisa especial antes de irem embora!". Não pareceu resultar. Como se não acreditasse em mim. Tentei de novo "Aposto que vais à praia muitas vezes, mas se calhar podíamos ir lá este fim de semana! Que achas?" Os olhos abriram-se mas não olhou para mim. Abriu a boca e gritou pelo irmão: "T.!!!!! ELA DIZ QUE VAMOS À PRAIA!!". Apressei-me a calá-la. "Temos que falar com a tua mãe primeiro." Voltou o olhar triste "Aposto que ela vai dizer que não!". Entretanto ouço uma discussão. Um dos "patrons" (o que chamamos a quem vem receber comida e não consigo encontrar tradução para a palavra), alguém que conheço por ter um atraso mental e se comportar como uma criança de 15 anos apesar de ter quase 60, decidiu pôr uma das mesas do jantar, no meio do parque de estacionamento. Se aparecesse um carro, não poderia passar. Vi o seu ar entusiasmado, já sentado na mesa como quem espera a comida, enquanto dizia "Que divertido!! Hoje vamos jantar num sítio novo!!". Mas a N, a mãe do T e da L, não estava a achar piada. Chamou-lhe todos os nomes ofensivos que sabia. Alguns que eu nunca tinha ouvido, enquanto lhe dava murros nos braços e dizia "És mesmo uma criança!! Porta-te como um adulto". 
Estavam cerca de 30 pessoas no parque de estacionamento. Ninguém se mexeu a não ser a L. Correu para a beira deles e tentou afastar a mãe como quem separa uma briga. Toda a gente baixou a cabeça e fez de conta que nada de passava enquanto a L dizia à mãe para parar de a envergonhar e para se afastar. O "patron" disse qualquer coisa inaudível e a L disse-lhe "pára de a provocar!". A mãe continuou a gritar e a atirar-se para cima do senhor. Aparece o Marcus, um dos voluntários que coordena o jantar e disse "Já chega!". Ficou tudo em silêncio enquanto ele pegou na mesa (fazendo com que o "patron" se levantasse) e pôs-la no lugar do costume. A N afastou-se e a L foi para um canto, demasiado envergonhada para olhar para mim. Apercebi-me então que as lágrimas escorriam pela minha cara e o meu coração estava prestes a sair-me pela boca. 
Não sei se consigo explicar o porquê. Sei que estava em comunhão com a vergonha que ela sentiu. Passou-me pela cabeça tudo o que a L poderia estar a sentir e saiu em forma de lágrimas e soluços. 
Não falámos até a refeição ter acabado e todos se terem ido embora. A caminho de casa vi-a sentada num banco e jardim e sentei-me ao lado dela. Estava de olho no irmão enquanto ele brincava no chafariz ao longe. Não falei do que se tinha passado. Perguntei o porquê de estarem ali. Ela disse que estavam à espera dos pais. Perguntei onde é que eles estavam. "A tentar arranjar droga. Não deve demorar".Olhei em volta e vi o pai a sair de um beco e a entrar na biblioteca. Provavelmente para ir ªa casa de banho e se trancar lá dentro. Pensei eu.
Perguntou-me se eu estava a falar a sério quanto a irmos passear à praia. Eu disse que sim. A mãe dela voltou e eu sabia que era má altura para falar com ela. Tinha acabado de tomar qualquer coisa e não estava em si, mas não queria desapontar a L. 
Falei-lhe da ideia e ela disse que sim, que podíamos passar o dia juntos. A L chamou o T e começámos os 3 a fazer planos de um dia feliz na praia a comer gelados.
Dois dias depois, quando chego, a L senta-se ao meu lado e chama-me mentirosa. Eu perguntei porquê e ela disse que não podíamos ir à praia! A mãe disse que ela e o T não iam a lado nenhum comigo e com o Jack! Era óbvio que a mentirosa aqui não era eu, e tanto eu como a L sabíamos, mas mais uma vez ela tinha demasiada vergonha para admitir que a culpa era da mãe. Perguntei se a mãe tinha dado um motivo e ela ficou-se pelo "sim". Eu disse que ela não tinha que me dizer o que a mãe lhe disse e ela agradeceu, acrescentando que preferia não contar. 
Não sei como vão os planos de se mudarem. Mas disse-lhe que talvez pudéssemos ficar pelo centro da cidade a comer um gelado da próxima vez que nos encontrássemos por acaso. 
Nos anos da L o Jack comprou um bolo e velas e levámos para o parque de estacionamento. "NÃO QUERO CANTAR OS PARABÉNS À FRENTE DESTA GENTE TODA!!!!!!!" e o Jack diz "Oh vá lá!" E ela diz "OOOOOOOOOKKKKKK!!" :) 
E levou o bolo para casa para partilhar com a avó.

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